terça-feira, 14 de agosto de 2012


“Quando orardes, não useis muitas palavras…”. Eclo 48,1-15 – Sl 96 – Mt 6,7-15

Somos eternos aprendizes na arte da oração. Muitos de nós, desde a nossa mais tenra infância, aprendemos a rezar. Por vezes, infelizmente, uma certa catequese superficial foi formando pessoas que mais rezavam com os lábios do que com o coração. Ainda hoje tem seu valor a recriminação de Jesus a respeito do que honram o Altíssimo com os lábios. Estamos convencidos de que precisamos reformar seriamente e constantemente nossa vida de oração. Digo bem: trata-se de uma vida de oração. Sabemos perfeitamente que a mera multiplicação de palavras não faz a oração ganhar em qualidade.
Algumas orientações para que possamos nos aperfeiçoar na arte da oração:
• Importante adquirir o hábito de caminhar na presença do Senhor. Trata-se de um expediente antigo dos mestres de espiritualidade. Mesmo quando não estamos no exercício da oração o Senhor nos olha, nos vê, acompanha nossos passos. Muitos ainda hoje conservam o hábito de dirigir a Deus, nas caminhadas, na condução, no trabalho, uma jaculatória ao Senhor: “Meu Deus e meu Tudo”; “Meu Senhor e meu Deus”; “Coração de Jesus que tanto me amais, fazei que eu vos ame cada vez mais”.
• Ajuda o fervor da oração a prática do silêncio. As pessoas que passam um tempo em silêncio sentem mais facilidade para rezar. A frequentação dos salmos e das páginas das Escrituras, no silêncio, tornam menos áridos os momentos de oração. Muitos e muitas chegaram a uma intensa vida de oração através da recitação incessante e sempre nova dos salmos, esse livro que foi feito pelo Espírito.
• Não se pode rezar apenas quando se experimenta “calor” no interior. A oração requer perseverança e fidelidade. Mesmo nos momentos de secura interior e de aridez dolorosa será preciso permanecer diante do Senhor como um vigia que não desiste de guardar a porta da casa.
• Nunca haveremos de nos esquecer que é o Espirito que reza em nós. Podemos e devemos preparar o “terreno”, ou seja, levar uma vida reta colocarmo-nos na presença do Senhor, tomar os textos inspirados, mas sempre quem reza em nós é o Espírito.
• Prática importante de oração é a da meditação: colocar-se na presença do Senhor, ler um texto, deixar a Palavra penetrar, ruminar aquilo que o Senhor nos fala.
• Muitos gostam de rezar com canto. Há essas melodias inspiradas: um dolente pedido de perdão, uma exultação gloriosa diante do Senhor, um grito de súplica. Muitos, ainda em nossos dias, gostam de rezar cantando as melodias do canto gregoriano.
• Há momentos determinados para a oração: manhã, tarde, noite. Temos que ser fiéis a eles. Importante que assim, aos poucos, nossa vida toda se torne uma existência de oração. É isso que conta.

Frei Almir Guimarães

sábado, 28 de julho de 2012


A ONDA RELIGIOSA



Perguntaram-me dois jornalistas de periódico do interior se, como sacerdote católico, não me preocupava o fato de que naqueles dias Lula, católico declarado e amicíssimo de Frei Beto, se abrira mais para os evangélicos; de o seu vice ser de um partido majoritariamente evangélico e ainda, se não me preocupava o crescimento deles e o encolhimento da Igreja Católica.

Pedi tempo para não responder em apenas uma sentença. O assunto é fundamental e a resposta não cabe numa frase de efeito. Entre outras coisas eu disse citando Bento XVI que as estatísticas não devem ser a preocupação número um da Igreja e sim o conteúdo da sua mensagem, nem que percamos por algumas décadas ou séculos.

Disse-o em outras palavras a Peter Seewald no livro “O Sal da Terra”. Também Jesus chamou os seus seguidores de pequeno rebanho. ((Lc 12,32) Por um tempo, certos grupos de extração evangélica e pentecostal eram o pequeno rebanho. Ultimamente estão menos pequenos, embora alguns andem maquiando a estatísticas para parecerem maiores do que são. Mas certamente cresceram e, pelo visto, crescerão muito. Espero que cresçam sadios e pacíficos, porque os religiosos donos da verdade, e isso inclui minha igreja, já criaram muitas guerras por espaço e por dominação.

É claro que me preocupa, mas inquieto-me bem menos pelo crescimento dos outros do que pela diminuição dos nossos. São irmãos e irmãs que preferem ouvir outros púlpitos, outros pregadores e outras garantias de salvação em Jesus, motivados por outros testemunhos e outras leituras do evangelho. Trocaram o padre pelo pastor. Preferiram outro rebanho. Aceitaram ser apascentadas por reverendos pastores em outros rebanhos porque acreditaram no seu discurso de que têm mais Cristo a oferecer. Talvez tenham. O tempo o dirá. O fato é que hoje eles acreditam mais nos bispos e pastores do eu- anguélion: (a boa nova) do que nos bispos e padres do cat-holou ( abrangente, para todos). Não querem mais o enorme colo da Igreja Católica e acham-se mais bem cuidados no colo às vezes pequeno de um rebanho pentecostal ou evangélico.

Como a vida e a fé tem vais-e-vens, nós que estamos no mundo há milênios e no Brasil há 500 anos sabemos a força e o poder do novo, contado e mostrado de um novo jeito, e através de poderosos novos veículos. Enfrentamos isso umas duzentas vezes com grupos dissidentes que nasceram entre nós e se tornaram igrejas sem nós ou contra nós.

O marketing religioso feito com grande competência por estes irmãos de outras igrejas certamente tem muito a ver com o seu crescimento. Se bancos, palhas de aço, sabonetes e cremes passam a ter milhões de compradores, e artistas, milhões de fãs, porque apareceram na mídia, porque não uma Igreja?

Se é certo ou errado é assunto para outra conversa. Por enquanto registre-se o fato: as igrejas que foram à mídia estão colhendo o resultado. Qual será o resultado do resultado daqui a 50 anos? Quem viver verá! Quanto à presença de pregadores da fé no Congresso e na política, o leitor já está vendo os resultados. Parece que os eleitos com o voto dos seus fiéis não têm se portado de maneira mais ética do que os outros. O nome de muitos deles estava lá ao lado de congressistas católicos nas acusações de malversação das verbas do povo. Pelo jeito nossas igrejas falharam na escolha dos seus fiéis que decidiram ingressar na política. Talvez falte em todas as igrejas uma catequese mais profunda sobre o quem é o dono dos bens de um país.
Pe. Zezinho, scj



sábado, 21 de julho de 2012


Ah, se eu pudesse voltar no tempo... 

 Se você tem mais de 60 anos, experimente, um dia, pôr no papel todas as coisas do passado que você se arrepende de ter ou de não ter feito. Não esqueça nenhuma. Terminada a tarefa, leia todas em voz alta e depois... Delete a lista, de preferência fisicamente e em um ritual (em uma fogueira, por exemplo) para conferir solenidade ao ato e dar a ele caráter celebrativo, de acerto final de contas com o passado. Para ser, definitivamente, a última vez que você perdeu tempo com essas coisas. O motivo? Ficar lembrando atitudes das quais nos arrependemos, e  com as quais já aprendemos, faz sofrer e é inútil. Adiantaria se, por acaso, viajássemos no tempo. Poderíamos, assim, no passado, tomar outra atitude, fazer uma opção diferente. Infelizmente, ou felizmente, ainda não inventaram tal recurso. E, mesmo se ele existisse ninguém garante que, passado novamente o tempo, não estaríamos, de volta ao futuro, arrependidos das novas atitudes tomadas. Logo, o melhor a fazer é queimar o arquivo morto da memória...

Não precisamos reescrever nossa história de vida para entendermos que as atitudes tomadas ontem, mesmo as sabidamente erradas, não podem ser redivivas. Se nós já nos arrependemos delas, nos conscientizamos que erramos e nos perdoamos, de nada adianta chorarmos sobre o leite derramado. O que passou, como dizem, passou. Em todo caso, chama a atenção o quanto essa lei da vida, tão irrevogável quanto à da gravidade, custa a ser aceita por pessoas com dificuldade em lidar com o passado. Não deveria ser assim e o psicólogo Alexandre Rivero, titular do Consultório de Psicologia e Ressignificação Humana, de São Paulo (SP), explica a razão. “Se eu não me perdoo, fico como que com um pesado saco de areia amarrado aos pés que impede de caminhar adiante e viver plenamente. O perdão, nesse caso, é a verdadeira ressignificação, ou a possibilidade, de olhar para uma velha situação já vivida com um novo olhar, renovado, sob uma perspectiva diferente”, alerta.

Terapia sem culpa – Muitas vezes, segundo os especialistas, a impossibilidade de se perdoar pode ser resultado de um quadro de depressão. Por isso, é preciso prestar atenção se a sensação constante de culpa vier acompanhada de outros sintomas clássicos dessa doença, como mudanças de humor, perda de interesse ou prazer nas atividades, ausência de autoestima, distúrbio de sono ou de apetite, falta de energia e de concentração. O que não é raro, diga-se, na terceira idade. De acordo com a Associação Brasileira de Psiquiatria, a depressão acomete cerca de 15% da população de idosos do País.

Uma solução para dar fim ao remorso, ao sentimento de culpa e a renitente sensação de estar em falta com o passado pode ser uma terapia analítica. “Ela ajuda o idoso a aceitar a idade, suas limitações e a não se prender ao que deixou de ser feito, mas ao que ainda poderá fazer”, explica a psicóloga Amanda Spinicci Paiva, para quem a terapia, nessa fase da vida, não é perda de tempo. “A sociedade não vê sentido em cuidar dos problemas existenciais do idoso, pois acredita que ele não tem mais o que construir. Além disso, o próprio idoso pode entender que, já por ter vivido uma longa história de vida, não pode mudar seu rumo, o modo de pensar ou agir. Na realidade, porém, a terapia não tem como objetivo mudar o jeito do idoso, mas acolhê-lo, respeitá-lo e compreendê-lo, fazendo-o se aceitar e apresentando a ele maneiras diferentes de viver”, afirma.

Aprendizado – Não podemos, de fato, pensar que, por termos cabelos brancos ou já não termos mais cabelo algum, não estamos aptos a assimilar novos ensinamentos e ressignificar nossas vidas. É o que, novamente, nos compartilha o psicólogo Alexandre Rivero. “Se, no passado, fizemos uma determinada escolha, precisamos levar em conta que essa foi a melhor possível naquela situação e com a experiência que tínhamos até então; e não termos o desejo fantasioso e nostálgico de, aos 20 anos, por exemplo, termos agido com a experiência de uma pessoa de 60. Nossa experiência de vida é dinâmica e estamos constantemente aprendendo, seja lá a idade que tivermos”, explica o especialista.




quarta-feira, 11 de julho de 2012


Pequenas e grandes recomendações aos missionários

Oséias 11, 1-4. 8-9; Mateus 10,7-15

Eis o evangelho do envio dos apóstolos pelo mundo afora por parte de Jesus. Apóstolo quer dizer precisamente aquele que é enviado.

Na verdade na Igreja existe um duplo movimento. Os discípulos começam a conhecer o Mestre e vivem em comunidades. Rezam juntos, vivem juntos, sonham juntos, deixam-se iluminar pela Palavra, alimentam-se do Pão da Eucaristia. Esse primeiro movimento é indispensável. É o viver em comunidades de fé e de amor.

Logo depois vem o ir pelo mundo afora. Vem à dinâmica do anúncio de um fogo que se carrega no coração. Este não pode ser abafado e diminuído. Ele precisa queimar… Os missionários dedicam-se totalmente ao anúncio, num misto de empenho próprio e de confiança total naquele que os envia.

Há uma urgência. O reino está próximo. Alguns sinais da proximidade desse mundo novo: os doentes são curados, os mortos ressuscitam, os leprosos ficam limpos e não há mais domínio do demônio.

Os que partem, os que são enviados são aqueles que de graça receberam e de graça dão.

Não levam garantias terrenas, nem dinheiro, nem prata… Não levam roupas de reserva. Basta a túnica que lhes cobre o corpo. O operário é digno de sua recompensa, tem direito ao seu sustento.

Os que são enviados ficarão hospedados nas casas das pessoas. Deverão se informar se naquelas cidades há, de fato, pessoas dignas de receber esses generosos anunciadores do mundo novo. Que seus hospedeiros saibam que hospedaram a anjos.

Se as pessoas ouvirem a mensagem que continuem ali. “Se alguém não vos receber nem escutar vossa palavra, saí daquela casa e daquela cidade e sacudi a poeira dos vossos pés”.

Ontem e hoje a Igreja é essencialmente missionária. Tanto recebeu de graça, tanto precisa dar de graça.

Paulo VI, na Exortação Apostólica Evangelii nuntiandi assim se exprimiu: “ Enviada e evangelizadora, a Igreja envia ela própria evangelizadores. É ela que coloca em seus lábios a Palavra que salva, que lhes explica a mensagem da qual ela mesma é depositária, que lhes confere o mandato que ela mesma recebeu e que, enfim, os envia a pregar. E a pregar, não as suas próprias pessoas ou as suas ideias pessoais, mas sim um Evangelho do qual nem eles nem ela são senhores e proprietários absolutos, para dele disporem a seu bel-prazer, mas de que são os ministros para o transmitir com máxima fidelidade” ( n. 15).

Frei Almir Ribeiro Guimarães

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Contiguamente Separado


Você já deve ter visto coisa semelhante, talvez aí mesmo na sua cidade. Mas há uma cidade que merece espaço para reflexão. Passo por ela algumas vezes. Numa das suas ruas há quatro lojas contíguas, separadas apenas por uma parede, todas as quatro lojas de roupas. Vendem roupas praticamente iguais, às vezes do mesmo fornecedor. Oferecem mais simpatia ou mais vantagens porque os produtos são praticamente os mesmos.
Na mesma rua há, também, quatro templos de quatro igrejas diferentes, separadas por não mais de três ou quatro metros cada uma. Apresentam o mesmo Cristo e pretendem ensinar a mesma fé, mas os fiéis de uma não frequentam a outra, enquanto que os fregueses de uma loja vão para a outra e às vezes até com recomendação da lojista vizinha; não tendo o produto elas indicam a loja ao lado. Há companheirismo ainda que competitivo.
O mesmo não fazem as igrejas. Em outras palavras: os lojistas são menos sectários que os pregadores e menos ciosos de seus fregueses. Aprenderam que a competição sadia é boa, mas o intercambio também é. Hoje eles indicam o produto de uma loja, amanhã a loja indicada apontará o produto deles.
As religiões não fazem o mesmo: é difícil um pregador aconselhar seu fiel a ir ouvir a pregação de outro, comprar o livro de outro autor. São ciosos do seu Cristo ou da sua versão do Cristo.
Soube por vizinhos e inclusive seguidores destas igrejas que nunca aconteceu de programarem uma reunião juntas, nem mesmo um almoço. E, no entanto quem prega o amor, a fraternidade, a unidade são esses templos e não as lojas…
Faz pensar o que vai pela mídia, televisão e rádio e o que vai pelos templos e pelas regiões centrais e periféricas de nossas cidades. As lojas parecem ser mais gentis e unidas do que os templos. Os comerciantes parecem muito mais capazes de diálogo do que os pregadores da fé. Aqui e acolá encontram-se pregadores ecumênicos, gentis e fraternos, abertos ao diálogo, capazes de admirar o outro. Mas não aposte em todos. Fundador de igreja nova ou novo templo quer mais é adeptos. Se puder pegar os da igreja vizinha é isso que ele vai fazer.
Prego a palavra de Deus há cinquenta anos e sei do que estou falando: a competição religiosa é muito mais forte que o cooperação religiosa. Sou dos otimistas que acha que um dia isso mudará, embora não venha a ser nos próximos dez anos. Mas há uma geração de padres e pastores dispostos a se encontrarem e dialogarem. Se eles o fizerem, seus fiéis também farão, até porque a maioria das discussões e brigas de fiéis nas ruas por causa de religião começaram nos púlpitos…
Se padres e pastores se dão bem, o povo se entende lá fora, se a pregação é deletéria, na base de igreja contra igreja; se for mentirosa, maliciosa, destruidora, deturpadora, usurpadora, demolidora e agressiva, os fiéis também serão.
Na cidade à qual me referi e naquela rua em particular, parece que os comerciantes conseguiram viver melhor o “amai-vos uns aos outros” do que os pregadores. Pelo que sei, as quatros lojas investem juntas no enfeite de natal, as igrejas, não! Quem pensa que inventei estes fatos ligue a televisão e o rádio e preste atenção nas pregações proselitistas
de alguns salvadores de almas para Cristo. Falam como se só eles existissem. Jesus não iluminou a mais ninguém. Que pena!
Pe. Zezinho, scj

terça-feira, 12 de junho de 2012


“A graça do silêncio”: reflexões a partir do capítulo quinto da Regra de Santa Clara

Por Frei Fábio Cesar Gomes

O capítulo quinto da Forma de Vida de Santa Clara como sugere o próprio título: “Sobre o silêncio, o locutório e a grade”, trata de questões que dizem respeito mais propriamente à índole contemplativa da vida das Irmãs Pobres. As várias determinações sobre portas, chaves, trancas, etc – também presentes no capítulo onze que trata da observância da clausura (cfr. rsc 11,3-7) – provêm das Regras papais e se justificam pelo fato de que o mosteiro de São Damião estava localizado fora dos muros de Assis e, por isso, muito exposto a invasões.

A originalidade de Clara neste capítulo da Forma de Vida, porém, aparece sobretudo no que diz respeito à sua compreensão de silêncio, sobre o que, num primeiro momento gostaríamos de concentrar nossa atenção para, logo em seguida, traçarmos alguns paralelos entre o pensamento dela e o de Francisco sobre o assunto. Por fim, muito brevemente, acenaremos para a pertinência do tema com relação a algumas questões levantadas nos Fóruns Provinciais.

Compreensão de silêncio em Clara

Ainda que Clara prescreva a observância da norma do silêncio em tempos e lugares bem determinados (cfr. rsc 5,1-2), a sua Regra não chega a proibir às irmãs o uso da palavra, como acontece, por exemplo, na Regra de Hugolino: “o silêncio contínuo seja constantemente observado por todas, de maneira que não lhes seja permitido falar nem umas com as outras nem com outras pessoas sem licença,…” (RHUG 6).

Pelo contrário, a Regra de Clara determina que as irmãs “podem insinuar o que for necessário sempre e em toda parte” (rsc 5,4), além de admitir que elas conversem com as pessoas externas ao mosteiro, no locutório e até – ainda que rarissimamente – também na grade (cfr. rsc 5,5-9). De fato, a norma do silêncio parece estar subordinada ao grande valor da convivência fraterna, em função da qual ela reconhece a necessidade e a importância da fala, especialmente na enfermaria, “em que as irmãs sempre podem falar discretamente para distrair as doentes e cuidar delas” (rsc 5,3).

Assim, podemos afirmar que para Clara, mais do que ausência total de palavras e rumores, o silêncio diz respeito a uma atitude fundamental de vida, ao modo de ser da escuta de Deus em todos os momentos e circunstâncias da vida. Trata-se, portanto, de cultivar o modo de ser da escuta como uma atitude fundamental da própria vida. Um modo de ser que se manifesta também no próprio modo de falar das irmãs: “discretamente”, “brevemente e em voz baixa” (rsc 5,3-4). É para a aquisição e conservação deste modo de ser por parte de cada irmã que a observância da norma do silêncio parece estar querendo apontar.

Compreensão do silêncio em Clara e Francisco: alguns paralelos

Ainda que a Regra de Francisco não determine, como a de Clara, os tempos e os lugares de se observar a norma do silêncio, isso não significa que ele não o considere importante. Pelo contrário, para Francisco o silêncio é tido como uma graça proveniente da prodigalidade do próprio Deus. Portanto, antes de ser uma conquista humana, o silêncio é uma dádiva divina que o frade deve esforçar-se por manter, por guardar (cfr. RNB 11,2; RERM 3). Assim, tal como para Clara, também para Francisco o silêncio, mais do que uma questão de calar ou falar, diz respeito à disposição daquele que, em todas as situações da vida, está continuamente preocupado em escutar aquela palavra que brota continuamente do âmago do silêncio abismal de Deus.

Além disso, é interessante observar que Francisco fala da “graça do silêncio” justamente naquele capítulo da Regra em que trata mais propriamente do relacionamento dos frades entre si, exortando-os a não se caluniarem nem porfiarem com palavras (cfr. RnB 11,2). Desta forma, o cultivo do modo de ser da escuta por parte de cada frade representa a condição de possibilidade de uma autêntica vida fraterna, enquanto nos previne das suas duas maiores ameaças: a calúnia e as discussões vãs. Aqui, é interessante perceber que, se para Clara – como vimos – o critério da caridade fraterna permite que o silêncio próprio da vida contemplativa seja rompido, para Francisco, é a mesma caridade fraterna a impor aos irmãos que vão pelo mundo que silenciem todo tipo de discussão e de julgamento (cfr. rb 3,11).

Mais ainda, assim compreendido como atitude fundamental de escuta, o silêncio não diz apenas respeito aos chamados à vida contemplativa, mas, também a nós que, desde as nossas origens, fomos enviados pela Igreja a pregar a todos a penitência (cfr. 1Cel 33,7; lm 3,10.11; 12; ltc 49,2; 51,10; ap 37,6). De fato, é interessante perceber que, na Carta a Toda Ordem, antes mesmo de nos exortar a darmos testemunho da voz do Filho de Deus e a anunciarmos a todos a Sua onipotência (cfr. CTORD 9), Francisco nos convoca a uma atitude de escuta atenta e de profundo acolhimento da Palavra de Deus (cfr. CTORD 6-7).

Por fim, tal como Clara, também para Francisco o modo de ser da escuta deve manifestar-se no nosso próprio modo de falar. E se isso vale para todos os frades, mais ainda para os pregadores, aos quais recomenda que “seja sua linguagem examinada e casta, para utilidade e edificação do povo, anunciando-lhe, com brevidade de palavra, os vícios e as virtudes, o castigo e a glória; porque o Senhor, sobre a Terra, usou de palavra breve” (rb 9,4-5). Neste contexto, a graça do silêncio manifesta-se num modo próprio de pregar segundo o qual não é o evangelizador – com sua eloquência – a colocar-se em evidência, mas, em cujo centro está sempre a pessoa de Jesus Cristo, aquele que “usou de palavra breve”, pois nos transmitiu somente as palavras que o Pai Lhe tinha confiado (cfr. Jo 17,8).

Relevâncias do tema

Na síntese dos nossos fóruns, falou-se em realizar a leitura orante da Palavra de Deus em fraternidade semanalmente e em celebrar o capítulo local mensal, privilegiando momentos de oração e de retiro. Até mesmo surgiu a proposta da revitalização do nosso eremitério a fim de acolher pessoas que demandam por retiro e recolhimento. Não estaria tudo isso revelando a necessidade de privilegiarmos tempos e espaços de silêncio exterior que nos possibilitem adquirir e conservar a atitude interior de escuta e acolhimento da voz do Filho de Deus (cfr. CTORD 6)?

No entanto, evidenciou-se, sobretudo a necessidade de redimensionarmos as nossas presenças, primando pela qualidade de vida fraterna em vista da evangelização. Aqui, a reflexão de Clara e Francisco sobre o silêncio nos parece bastante oportuna. De fato, o redimensionamento diz respeito a um processo que requer de cada um de nós, e de todos nós juntos, uma grande capacidade de fazer silêncio, um grande esforço “por manter o silêncio” (RNB 11,2; RERM 3), como diria Francisco. E isso, tanto no sentido de nos colocarmos à escuta daquilo que o Espírito do Senhor nos fala no momento presente da História, como no sentido de silenciarmos todas as formas de calúnias e de discussões vãs (cfr. rnb 11,1; 2Tm 2,14).


quarta-feira, 30 de maio de 2012

Carta aberta a um ministro

Por Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM (*)

Bem querido (a) irmão(a) ministro (a),

Paz e todos os bens!

Dirijo esta cara aberta a cada ministro (a) da OFS.  Penso de modo particular, nos ministros e ministras locais. A ideia e o título me vieram como a Carta a um Ministro de Francisco de Assis. Sei perfeitamente que você não age sozinho, mas sempre em união com o Conselho de sua Fraternidade. É assim que deve ser. Reconheço, no entanto, a sua importância no seio da Fraternidade local. Você foi escolhido pelos irmãos para estar à frente de todos. Seu exemplo e seu entusiasmo pela Ordem é fundamental. Todos devem poder olhar para você buscando novo estímulo para viver a santidade. Você sabe também que pode pouco. Lembre-se sempre do conselho evangélico: fazer tudo o que deve ser feito e considerar-se servo inútil. Ou, então, aquela outra máxima: fazer o que deve ser feito, como se tudo dependesse de você, mas sabendo que tudo depende de Deus. A Ordem não é sua. É do Senhor.
Uma das maiores e mais preciosas riquezas da Ordem Franciscana Secular são as fraternidades locais concretas que são confiadas ao seu zelo. Irmãos e irmãs aí vivem e, de alguma forma, decidem sua vida presente e a eternidade no seio desses espaços que chamamos tão belamente de fraternidades. Você não administra em primeiro lugar bens, coisas materiais, mas alimenta vidas humanas tocadas por Cristo e desejosas de seguirem o Mestre à maneira de Francisco de Assis.
 1.Você não tem o título de superior, diretor ou presidente. Seu título de honra é ser irmão (ã) ministro (a). Você é aquele que serve. Durante três anos a sua Fraternidade ocupará um lugar importante na organização de sua vida e no emprego de seu tempo. Gostaria de lembrar alguns tópicos da Regra e das Constituições a respeito de sua função de lavar os pés dos irmãos.
 2.O ministro sabe que “seu serviço, que é temporário, é um cargo de disponibilidade e de responsabilidade em favor de cada indivíduo e dos grupos” (Regra n.21). Duas palavras chaves: disponibilidade e responsabilidade, virtudes eminentemente evangélicas.
 3.De maneira muito feliz e sintética, as Constituições Gerais falam assim de sua tarefa: “O cargo de Ministro ou de Conselheiro é um serviço fraterno, um compromisso de se tornar disponível e responsável para cada irmão e para a Fraternidade, a fim de que cada um se realize na própria vocação e cada Fraternidade seja uma verdadeira comunidade eclesial franciscana, ativamente presente na Igreja e na sociedade” (Art 31, 2). Preste bem atenção ao que você acaba de ler.
 4.Sim, ser ministro não é um cargo honorífico, mas de serviço. Já disse. Você recebe, durante um tempo, a graça de poder se esquecer de seu mundo e se dedicar de fato a pessoas que você costuma designar de irmãos e de irmãs. Na dedicação sincera a todos vai sendo gerado e alimentado o amor fraterno. Você haverá de estar atento às pessoas tomadas individualmente. Ninguém poderá dizer que não tenha merecido seu olhar e sua atenção. Mas cuidado! As pessoas sabem quando alguma coisa nasce no coração do ministro, ou simplesmente quando ele faz ou diz por obrigação.
 5.As Constituições Gerais elencam uma série de qualidades do Ministro que devem estar presentes em sua gestão: “Os responsáveis pela OFS em cada nível sejam irmãos professos perpétuos, convencidos do valor da vida evangélica franciscana, atentos, com visão larga e generosa à vida da Igreja e da sociedade, abertos ao diálogo, disponíveis para dar e receber ajuda e colaboração” (Art 31, 2). Gostaria que você e seu Conselho refletissem sobre estes pontos: você precisa acreditar na Ordem, vestir a camisa, os irmãos nunca poderão pensar que você perdeu o gás e faz coisas por fazer; precisa abrir-se às grandes necessidades da Igreja e do mundo, abrir-se ao diálogo. Quanta coisa: mundo da indiferença, do consumismo, do legalismo, do devocionalismo sem engajamentos, das confusões da linha do gênero, do ser pai, ser mãe… É assim que você pode efetuar o trabalho de lavar os pés dos irmãos… no seu triênio de ministro. Você prestou atenção que as Constituições falam de uma visão ampla e generosa. Por detrás disto está o espirito de criar o novo. Estou convencido que muitos não entram na OFS porque tudo é estático, seco, sem vida, sem amanhã… Ninguém gosta de frequentar espaços sem viço…
 6.E você, com seu Conselho, vão preparar da melhor maneira as reuniões, difundirão ânimo e vida fraterna, criando o novo nas reuniões e motivando a todos a se engajarem na vida apostólica (cf. CCGG 31,4).
 7.Gostaria de chamar atenção para a questão do acompanhamento da Fraternidade. Esse é um aspecto fundamental. Ninguém pode faltar a uma reunião, sem motivo. A presença de todos é sinal de senso de pertença. A ausência regular e os pedidos de afastamento devem questioná-lo (a). O amor não pode ser fingido. Leia com o seu Conselho muitas vezes 1Coríntios 13, 1-13. Há manifestações de amor no jeito de acolher, no respeito pelas pessoas, no sigilo a ser guardado, na visita aos doentes, na busca dos afastados, no evitar juízos precipitados, no fato de não se comentar nada a respeito dos irmãos. Nunca será uma Fraternidade fechada, um ninho quente, um refúgio de pessoas sem coragem. Você cuidará disso.
 8.Fique atento para que certos irmãos não “inventem” pertenças desnecessárias a outros grupamentos. De repente, sem formação adequada, eles passam a borboletear de flor em flor e não serão pessoas cristãmente realizadas. Cuide também que os ditos irmãos não venham a se engajar demais na pastoral em detrimento sério da construção da fraternidade.
 9.Procure sondar se houve ou há ressentimentos. Converse com o Assistente sobre o assunto. Lute quanto puder para extirpar essa erva daninha do ressentimento que corrói os relacionamentos em nossas Fraternidades que, infelizmente, podem ser espaços de competição e de inveja. Os irmãos precisam se perdoar… Escrevo isso, mas sei quanto é difícil.
 10.Espero que você esteja convencido (a) da importância de cada irmão. Não entro nos pormenores. Ninguém pode ser esquecido, menosprezado, discriminado. Há dotes e talentos que os irmãos e irmãs ainda não revelaram. Procure descobri-los. É sua missão olhar com atenção “os irmãos que Deus lhe deu”. Sua Fraternidade se enriquecerá quando puder contar com a colaboração criativa de todos. Não me canso de dizer: nossa riqueza são nossas Fraternidades. A credibilidade da OFS depende da qualidade da vida fraterna. Um documento de orientação de vida dos franciscanos seculares franceses, anterior à Regra de Paulo VI, assim se exprimia: “Todo homem é um dom do Senhor. Queremos reconhecer em cada um deles um irmão e nós mesmos pretendemos agir como irmãos. Haveremos de nos dirigir a todos os homens sem nos deixar desviar por considerações de raça, classe, ambiente social, poder econômico, ideologia, cultura, religião ou moral. Recusamos condenar e fazer julgamentos maldosos e ultrapassar todas as classificações nas quais o homens costumam se fechar uns aos outros. Haveremos de manifestar respeito por todos os homens. Acolher-los-emos. Prestaremos atenção às suas necessidades e expectativas. Queremos trocar idéias com todos e com todos partilhar. Prestando serviço aos irmãos haveremos de nos mostrar alegres e despretensiosos. Queremos amá-los não em palavras, mas por meio de atos, persuadidos que somente o amor é fonte de felicidade e de salvação, para eles e para nós”.
 11.Sua Fraternidade precisa ser ativa. Sei que os idosos podem pouco, mas podem um pouco. A Igreja precisa dos irmãos e das irmãs. Fomos chamados a restaurar o tecido esgarçado da Igreja, a reconstruir a Igreja. Que os irmãos não “ingressem” de qualquer jeito em pastorais. Devem fazê-lo, mas com competência e de maneira aberta, evangelicamente abertos. Que ninguém dos nossos irmãos são retrógrados, ultrapassados, carolas, piegas….Não estou defendendo aqui uma adaptação ilegítima aos tempos, mas tenho certeza que o Espirito está levando a Igreja e a pastoral para novas direções. Deus nos livre que os franciscanos seculares atravanquem a renovação…
 12.Estou convencido que você já está fazendo o que agora sugiro: reze todos os dias pelos seus irmãos, seja um dezena do terço, seja uma parte do ofício franciscano. Ofereça a Deus sacrifício pelos irmãos. Queria lhe pedir uma coisa, se fosse possível: participe todos os dias da Missa.
 13.Se de um lado os irmãos farão, sob sua orientação, experiência de fraternidade, também farão uma experiência de Deus. Queria lhe pedir com todo carinho: não deixe que os retiros sejam meros encontros, sem silêncio, sem profundidade, sem dimensão de interioridade. Não queremos Fraternidades compostas por pessoas superficiais. A experiência de Deus se faz também através de dias ou de noites de recolhimento sem muita papelada, sem muito barulho, sem muitos gritos estridentes. O Senhor costuma falar na brisa suave. Atente para isso.
 14.Não desanime diante da fragilidade e do pecado do irmão. Leia com calma a Carta a um ministro: “Nisto reconhecerei que amas realmente o Senhor e a mim, servo dele e teu, se fizeres o seguinte: não haja irmão no mundo, mesmo que tenha pecado a não poder mais, que, após ver os teus olhos, se sinta talvez obrigado a sair de tua presença sem ter obtido misericórdia se misericórdia buscou”.
 15.Fiquei sabendo de uma Fraternidade, cujos irmãos passando pelas ruas, andam recolhendo trapos humanos e tratando-os com todo carinho. Alguns deles começaram a participar de reuniões da Fraternidade e hoje são simpatizantes. Em breve esses restos humanos sentir-se-ão inseridos no cortejo dos penitentes franciscanos e serão pessoas gratas para sempre.
 16.Faça tudo como as Constituições e Orientações nacionais ditam. Não negligencie nada… mas, juntamente com o seu Conselho e sua Fraternidade, invente o novo, sem demora: encontros para discutir os grandes problemas de hoje, grupos de oração do tipo das oficinas de oração, presença aberta no mundo. Não se esqueça que o Espirito quer que você e sua Fraternidade escrevam uma página nova.
 17.Vou terminando. Muito mais queria lhe dizer. Há mais dez anos venho me ocupando da OFS em nível regional (Rio e São Paulo) e em plano nacional e penso que as palavras que escrevi podem ser úteis a você, querido irmão ministro, querida irmã ministra. Gostaria de terminar essa carta com um texto de João Paulo II, em mensagem dirigida aos capuchinhos italianos por ocasião de Capítulo das Esteiras, 29 de outubro de 2003. É um texto que fala da minoridade franciscana. Outros preferem a expressão minorismo franciscano: “A minoridade comporta um coração livre, desprendido, humilde, manso e simples, como Jesus nos propôs e como Francisco o viveu; exige uma total renúncia de si mesmo e uma plena disponibilidade para Deus e para os irmãos. A “minoridade vivida expressa uma força desarmada e desarmante da dimensão espiritual da Igreja e do mundo”. E não somente isso! A verdadeira minoridade liberta o coração e torna-o disponível para o amor fraterno, cada vez mais autêntico, e que se dilata em uma ampla constelação de comportamentos típicos. Favorece, por exemplo, um estilo caracterizado pelas atitudes de simplicidade e sinceridade, de espontaneidade e concretude, de humildade e de alegria, de abnegação e disponibilidade, de proximidade e de serviço, especialmente com relação ao povo e às pessoas mais pequeninas e necessitadas”. Você, meu caro (a) ministro (a) será muito feliz em sua missão deixando-se impregnar desse espírito.
Um grande abraço, toda a estima e todos os bens.
(*) Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFS
 Assistente Nacional da OFS pela OFM e Assistente Regional do Sudeste III